Espiritualidade e religião

Eu fui criado em uma escola católica e durante meus primeiros anos de infância fui um menino cristão exemplar. Mas ao chegar na pré-adolescência algumas dúvidas começaram a surgir. Me lembro que aos 12 anos na minha catequese [aulas que preparam os jovens cristãos para a 1º comunhão] eu perguntei ao rapaz leigo que ministrava esses cursos o porquê de Noé não colocar os dinossauros em sua arca. A pergunta fez ele suar e sua resposta não me convenceu em nada. As dúvidas sobre as respostas cristãs foram aumentando e lá pelos 13-14 anos eu já era um ateu convicto. Adorava debater com crentes no Orkut e achava que qualquer pessoa religiosa era burra. Os anos foram passando e fui me afastando desse radicalismo ateu e me aproximando do agnosticismo e do humanismo secular [pensamento de que a razão humana pode resolver os problemas do mundo, sem apelar para entidades sobrenaturais].

Já nesses últimos 5 anos [tenho 29 agora], meu interesse no budismo vem se intensificando. Mas foi um pouco agonizante me ver voltando a uma “religião”, principalmente quando eu via “autoridades” budistas defenderem coisas como renascimento e karma de vidas passadas. Crenças que me mantenho cético, pois não podem ser comprovadas, nem refutadas; assim como a existência de Deus. Buda mesmo não se interessava em discutir tais especulações por entender que elas não eram relevantes para dar fim ao sofrimento, o objetivo principal de seus ensinamentos.

Recentemente, um trecho de um livro me fez perceber que minha busca nunca foi por uma nova religião, ela sempre fora uma busca espiritual. E nessa busca, é comum nos sentirmos como andarilhos perdidos num deserto, pois as “cidades” que já existem a nossa volta, não são as cidades que queremos fixar nossa moradia: queremos algo diferente.

Andar no deserto: é muitas vezes assim que a busca espiritual se parece…

Essa é minha primeira publicação nesse site e não quero começar a criar uma “cidade” no deserto para a sua estadia e a dos demais. Quero apenas ser aquele que lhe dará um gole de água para que continues a tua própria busca. Essa é a função do trecho que trago agora do livro Homo Deus — Uma breve história do amanhã de Yuval Noah Harari, página 191–195:

“A afirmação de que a religião é uma ferramenta utilizada para preservar a ordem social e organizar uma cooperação em grande escala pode aborrecer aqueles para a qual ela representa um caminho espiritual. Contudo, assim como a brecha entre religião e ciência é mais estreita do que em geral se pensa, da mesma forma a brecha entre religião e espiritualidade é muito mais ampla. Religião é um trato, enquanto espiritualidade é uma jornada.

A religião prove uma descrição completa do mundo e nos oferece um contrato bem definido, com objetivos predeterminados. “Deus existe. Ele nos disse que nos comportássemos de certas maneiras. Se você obedecer a Deus, será admitido no céu. Se lhe desobedecer, queimará no inferno”. A simples clareza desse contrato permite à sociedade definir normas e valores comuns que regulam o comportamento humano.

Jornadas espirituais não se assemelham a nada disso. Elas levam as pessoas por caminhos misteriosos em direção a destinos desconhecidos. A busca geralmente começa com alguma pergunta profunda, tal como: “Quem sou eu?”, “Qual o sentido da vida?”, “O que é o bem?”. Enquanto a maioria das pessoas simplesmente aceita as respostas predefinidas fornecidas pelas forças dominantes, aquelas que buscam a espiritualidade não se satisfazem tão facilmente. Estão determinadas a sair em busca da grande questão, aonde quer que isso as leve, e não só a lugares que conhecem bem ou que querem visitar. Assim, para muita gente os estudos acadêmicos são um trato, e não uma jornada espiritual porque eles nos levam a objetivos predeterminados aprovados por nossos pais, governos e bancos. “Vou estudar três anos, passar nos exames, obter meu bacharelado e me garantir com um emprego, seguro e bem pago.” Estudos acadêmicos poderiam transformar-se em uma jornada espiritual se as questões com que deparássemos no caminho nos desviassem rumo a destinos inesperados de cuja existência quase não tínhamos noção no começo. Por exemplo, uma estudante poderia começar a estudar economia com o objetivo de conseguir um emprego em Wall Street. Contudo, se esse estudo a induzisse, de alguma maneira, a ir parar num eremitério hindu ou a dar assistência a pacientes com HIV no Zimbábue, poderíamos chamar isso de jornada espiritual.

Por que rotular tal viagem como “espiritual”? Isso é um legado de antigas religiões dualistas que acreditavam na existência de dois deuses, um do bem e outro do mal. Segundo o dualismo, o deus do bem criou as almas puras e eternas que viviam num bem-aventurado mundo do espírito. No entanto, o deus do mal — às vezes chamado de Satã — criou outro mundo, feito de matéria. Satã não sabia o que fazer para que sua criação durasse, por isso no mundo da matéria tudo apodrece e se desintegra. Para insuflar vida em sua criação defeituosa, Satã tentava as almas do mundo puro do espírito e as confinava em seus corpos materiais. Como a alma aprisionada — o corpo — decai e posteriormente morre, Satã seduz a alma com delícias corporais, sobretudo com comida, sexo e poder. Quando o corpo se desintegra e a alma tem a oportunidade de fugir, retornando ao mundo espiritual, seu desejo de prazeres corporais a leva de volta para dentro de algum novo corpo material. A alma, assim, se transmigra de corpo em corpo, desperdiçando seu tempo em busca de comida, sexo e poder.

O dualismo instrui as pessoas a romper essas cadeias materiais e empreender uma jornada de volta ao mundo espiritual, que nos é totalmente desconhecido, mas também nossa verdadeira moradia. Durante essa busca, temos de rejeitar todas as tentações e tratos materiais. Em razão do legado dualista, toda jornada na qual duvidemos das convenções e dos tratos do mundo terreno e nos aventuramos em direção a um destino desconhecido é chamada de “jornada espiritual”.

Essas jornadas são fundamentalmente diferentes de religiões porque estas buscam consolidar o mundano, enquanto a espiritualidade busca fugir dele. Com frequência, uma das mais importantes obrigações dos errantes da espiritualidade é desafiar as crenças e convenções das religiões dominantes. No zen-budismo diz-se: “Se você se deparar com Buda na estrada, mate-o.” Isso significa que, quando estiver andando pelo caminho espiritual, se deparar com ideias rígidas e as leis fixas do budismo institucionalizado, deve livrar-se delas também.

Para as religiões, a espiritualidade é uma ameaça perigosa. Tipicamente, as religiões empenham-se para controlar as buscas espirituais de seus seguidores, e muitos sistemas religiosos são desafiados não por pessoas laicas preocupadas com comida, sexo e poder, e sim por buscadores da verdade espiritual que esperavam mais do que esses lugares-comuns. Assim, a revolta protestante contra a autoridade da Igreja católica não foi inflamada por ateus hedonistas, mas por um monge devoto e ascético, Martinho Lutero. Ele queria respostas para as questões existenciais da vida e recusou a se conformar aos ritos, rituais e tratos oferecidos pela Igreja.

(…)

De uma perspectiva histórica, a jornada espiritual é sempre trágica, pois é um caminho solitário apenas para indivíduos e não para sociedades inteiras. A cooperação humana requer respostas firmes e não somente perguntas justas, e aqueles que se enfurecem contra estruturas religiosas insensatas frequentemente acabam forjando novas estruturas em seu lugar. Isso aconteceu com os dualistas, cujas jornadas espirituais se tornaram estamentos religiosos. Isso aconteceu com Martinho Lutero, que, depois de desafiar as leis, as instituições e os rituais da Igreja católica escreveu novos livros de leis, fundou novas instituições e inventou novas cerimônias. Isso aconteceu até mesmo com Buda e Jesus. Em sua busca intransigente da verdade, eles subverteram as leis, os rituais e as estruturas do hinduísmo e do judaísmo tradicionais. No entanto, ulteriormente mais leis, mais rituais e mais estruturas foram criados em seu[s] nome[s] do que em nome de qualquer outra pessoa na história.”

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