Interrompendo as crenças: Como Buda me ensinou a abandonar budismo

Superficialmente, o budismo é uma religião agradável que promove compaixão por todos os seres vivos – até mesmo baratas e comerciantes de Wall Street.  Embaixo dos panos, porém, é uma filosofia sediciosa que mina os próprios fundamentos da razão. Ele sugere que tudo que você experimenta é ilusório – incluindo o próprio budismo.

O resultado disso é que, embora tenha me tornado budista para transformar minha mente, essa transformação não começou a acontecer até eu deixar de lado minhas crenças budistas.

Eu estava há uns seis anos na vida monástica quando me perguntei seriamente porque eu acreditava – em reencarnação, em felicidade perfeita (iluminação) e em toda aquela trama de ideias encantadoras. A resposta era banal, mas também um choque para minha integridade: eu cultivava essas crenças porque elas me traziam conforto.

  • Elas proviam um quadro conveniente para explicar a vida e seu propósito
  • Elas me conectavam com pessoas que concordavam comigo, com quem eu alegremente concordei em estabelecer trocas.
  • Elas me inscreveram em uma instituição venerável e centenária, que estava além de questionamentos.

“Salvo”, obviamente, não é um conceito budista, e sim cristão – como já fui uma vez. Eu comecei a suspeitar que algo daquilo permanecia. Talvez eu tenha rejeitado racionalizações da minha religião de nascença, mas seus gatilhos emocionais eram parte integrante dos meus caminhos neurais. Mudar minhas ideias não mudou minhas reações habituais.

Você acredita honestamente que você vai voltar como um inseto?

Eu pensava que o budismo era diferente. Acabou que dependeu de mim ser diferente. E, no entanto, os ensinamentos de Buda me ajudaram a abandonar o budismo. Ele ignorou a questão de saber se a vida tinha algum significado último, e sugeriu apenas que encontrássemos nosso caminho entre os dois extremos fatais do eternalismo e niilismo (o que hoje se apresenta no ocidente como teísmo fundamentalista versus ateísmo radical).

Como um humilde monge, tive a liberdade de ponderar esse dilema no meu próprio tempo. Quando eu comecei a ensinar, no entanto, as coisas ficaram complicadas. Ainda hoje, as pessoas ouvem ansiosamente os tibetanos falando sobre a vida após a morte, demônios invisíveis e seres iluminados que conhecem o passado, o presente e o futuro. Não sendo asiático, eu enfrentei perguntas que eram demasiado rudes para se fazer a um venerável velho lama; Perguntas como, “Você acredita honestamente que você vai voltar como um inseto?”

Honestamente? Minha pergunta original sobre por que eu acreditava agora se transformou no dilema do que fazer com essas crenças detidas por razões tão frágeis. Abandoná-las significava abandonar o meu papel de monge e o estilo de vida privilegiado que as acompanhavam. Significava voltar ao mundo e suas duras realidades. Significava perder o meu sistema de apoio. Ainda assim, se queria olhar-me nos olhos todas as manhãs, tinha de ser feito.

A única coisa que eu mantive foi o Buda como modelo. Assim como ele desistiu de seus confortos mundanos, eu desisti de meus espirituais. Como ele, eu preferia viver sem a verdade ao invés de verdades artificiais.

Com tempo e experiência, eu finalmente estava pronto para ensinar novamente – embora não sob a bandeira do budismo. Os anos haviam passado, e para mim o Buda e o budismo eram duas coisas muito diferentes. Desde que o movimento espiritual real tinha começado para mim com meu próprio esforço para a honestidade, eu tomei isso como meu alicerce. Eu cunhei a frase: “Exponha-se à dúvida”. Eu me chamei de “O Monge Nu”.

Reflexão consciente: A honestidade para expor e desenraizar a rejeição

É sabido que o Buda ensinou a atenção plena; hoje em dia essa é a grande moda. É menos sabido que ele a ensinou no contexto da reflexão. Muitas pessoas concebem a meditação como a interrupção dos pensamentos e esvaziamento da mente. A atenção plena dá seus “frutos a longo prazo” no contexto de como vivemos e pensamos quando estamos fora da almofada de meditação. Eu uso a palavra “reflexão” para descrever o rearranjo do pensamento em perspectivas que permitem o descarte – especialmente de crenças e visões insustentáveis. O Buda promoveu a economia do pensamento e, acima de tudo, a integridade para expor e desenraizar a rejeição. Eu chamo seu método de Atenção Reflexiva.

Eu não acredito nem desacredito em reencarnação e iluminação. Eu realmente não posso dizer se existe alguma coisa como a completa liberdade do estresse nesta vida. Opiniões como esta consomem muita energia, mas na verdade não levam a lugar nenhum. O ponto é: Aqui estamos, e agora? A vida é estressante; O que podemos fazer sobre isso?

Instintivamente, lidamos com a rejeição. Isso nos leva a repetir nossas histórias pessoais repetidas vezes (samsara). A atenção plena coloca o impulso de nossos padrões mentais (carma) em foco. Refletir sobre a vida com inteligência e compaixão nos leva a mudar esses padrões.

Inteligência e compaixão são as duas chaves da prática. Elas nos ajudam a lidar com a incerteza, a dor e a tragédia da vida. Elas são o que o Buda ensinou, mas muitas vezes são enterrados na miríade de princípios e crenças da religião budista, que começou no dia em que ele morreu. Suas últimas palavras não eram sobre manter a organização ou os ensinamentos que ele havia estabelecido. Elas eram simplesmente um incentivo para aqueles que ele deixou para trás:

“Esforçai-vos sinceramente por vossa própria liberdade.”

“Sinceramente” significa honestamente. Então, em quê, e por que, você acredita – honestamente?

Escrito por Stephen Schettini no site The Naked Monk. Texto original disponível aqui. Traduzido por Jonas Costa.

Um comentário em “Interrompendo as crenças: Como Buda me ensinou a abandonar budismo

  1. Há grandes diferenças entre a linha de pensamento do budismo tibetano, profundamente esotérico, e a corrente mais tradicional do budismo e mais próxima das escrituras atribuídas ao Buda. Então, não creio que seja adequado resumir o budismo por uma linha de pensamento apenas. O Buda nunca falou que tudo é ilusório, essa é uma linha de pensamento tibetana. O que o Buda dizia é que a nossa percepção da realidade era distorcida pelo ego, pela ilusão de um eu pensador. O Buda fala de renascimento e não de reencarnação, que são conceitos bem diferentes. Existe mesmo o mundo dos animais, segundo o budismo, mas isso não quer dizer que a pessoa renascerá como um inseto indiscriminadamente, que está nessa condição devido à ignorância e a falta de capacidade de compreensão. Por fim, não se pode atribuir ao Buda linhas de pensamento e crenças que foram adicionadas posteriormente pelo homem, a fim de que o budismo lhes parecesse mais adequado à cultura adotada até então.

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